Questão 113 do ENEM 2012 comentada
Como a alusão bíblica e a escolha de imagens revelam a concepção artística do poema.
Pote Cru é meu pastor. Ele me guiará.
Ele está comprometido de monge.
De tarde deambula no azedal entre torsos de cachorro, trampas, trapos, panos de regra, couros, de rato ao podre, vísceras de piranhas, baratas albinas, dálias secas, vergalhos de lagartos, linguetas de sapatos, aranhas dependuradas em gotas de orvalho etc. etc.
Pote Cru, ele dormia nas ruínas de um convento
Foi encontrado em osso.
Ele tinha uma voz de oratórios perdidos.
BARROS, M. Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record, 2002.
Ao estabelecer uma relação com o texto bíblico nesse poema, o eu lírico identifica-se com Pote Cru porque
- AEntende a necessidade de todo poeta ter voz de oratórios perdidos.
- BElege-o como pastor a fim de ser guiado para a salvação divina.
- CValoriza nos percursos do pastor a conexão entre as ruínas e a tradição.
- DNecessita de um guia para a descoberta das coisas da natureza.
- EAcompanha-o na opção pela insignificância das coisas.
Tente resolver antes de abrir. Errar aqui é de graça.
Ver a resposta e a resolução
O que a questão cobra
A questão exige reconhecer a referência bíblica e relacioná-la à maneira como o poema valoriza elementos desprezados. Também cobra a interpretação da identificação entre o eu lírico e Pote Cru.
Resolução
A expressão inicial retoma a imagem bíblica do pastor que guia seu rebanho. No poema, porém, quem ocupa esse lugar é Pote Cru, personagem associado a objetos descartados e a imagens de decomposição.
Pote Cru é meu pastor. Ele me guiará.
A enumeração de restos, trapos e partes de animais mostra o percurso desse pastor por um espaço de abandono. Ele dorme nas ruínas de um convento e é encontrado em osso. Esses elementos não o apresentam como um guia que conduz à salvação, mas como alguém ligado ao que costuma ser visto como insignificante.
Ao dizer que Pote Cru é seu pastor, o eu lírico manifesta que segue uma orientação artística semelhante: voltar o olhar para coisas pequenas, desprezadas ou sem valor aparente. Assim, a identificação não se explica pela busca de uma tradição religiosa nem pela descoberta da natureza. Ela está na valorização poética da insignificância.
Alternativa por alternativa
- A
A voz de oratórios perdidos aparece no poema, mas não é apresentada como uma necessidade de todo poeta. A identificação se constrói pela valorização do que é insignificante.
- B
A alusão ao pastor não leva à ideia de salvação divina. Pote Cru é ligado a restos, abandono e ruínas.
- C
O convento em ruínas e os oratórios são mencionados, mas o poema não destaca uma conexão entre eles e a tradição. O foco está nas coisas desprezadas que compõem o percurso de Pote Cru.
- D
O poema não apresenta Pote Cru como guia para descobrir a natureza. Seu caminho passa por restos e objetos descartados.
- E
Correta. O eu lírico se identifica com Pote Cru porque acompanha sua valorização do que é desprezado ou tido como insignificante. As imagens do poema reforçam essa escolha.
Para lembrarUma alusão deve ser interpretada no contexto do texto: a imagem do pastor pode ganhar um sentido diferente do bíblico.
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