Linguagens ENEM 2009 difícil

Questão 131 do ENEM 2009 comentada

Compare as ideias sobre contato linguístico e os usos sociais da língua portuguesa.

Numeração do caderno azul · Linguagens

Questão 131ENEM 2009

Texto I
Acompanhando os navegadores, colonizadores e comerciantes portugueses em todas as suas incríveis viagens, a partir do século XV, o português se transformou na língua de um império. Nesse processo, entrou em contato — forçado, o mais das vezes; amigável, em alguns casos — com as mais diversas línguas, passando por processos de variação e de mudança linguística. Assim, contar a história do português do Brasil é mergulhar na sua história colonial e de país independente, já que as línguas não são mecanismos desgarrados dos povos que as utilizam. Nesse cenário, são muitos os aspectos da estrutura linguística que não só expressam a diferença entre Portugal e Brasil como também definem, no Brasil, diferenças regionais e sociais.

PAGOTTO, E. P. Línguas do Brasil. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br.
Acesso em: 5 jul. 2009 (adaptado).

Texto II
Barbarismo é vício que se comete na escritura de cada uma das partes da construção ou na pronunciação. E em nenhuma parte da Terra se comete mais essa figura da pronunciação que nestes reinos, por causa das muitas nações que trouxemos ao jugo do nosso serviço. Porque bem como os Gregos e Romanos haviam por bárbaras todas as outras nações estranhas a eles, por não poderem formar sua linguagem, assim nós podemos dizer que as nações de África, Guiné, Ásia, Brasil barbarizam quando querem imitar a nossa.

BARROS, J. Gramática da língua portuguesa. Porto: Porto Editora, 1957 (adaptado).

Os textos abordam o contato da língua portuguesa com outras línguas e processos de variação e de mudança decorridos desse contato. Da comparação entre os textos, conclui-se que a posição de João de Barros (Texto II), em relação aos usos sociais da linguagem, revela

  1. A
    Atitude crítica do autor quanto à gramática que as nações a serviço de Portugal possuíam e, ao mesmo tempo, de benevolência quanto ao conhecimento que os povos tinham de suas línguas.
  2. B
    Atitude preconceituosa relativa a vícios culturais das nações sob domínio português, dado o interesse dos falantes dessa línguas em copiar a língua do império, o que implicou a falência do idioma falado em Portugal.
  3. C
    O desejo de conservar, em Portugal, as estruturas da variante padrão da língua grega — em oposição às consideradas bárbaras —, em vista da necessidade de preservação do padrão de correção dessa língua à época.
  4. D
    Adesão à concepção de língua como entidade homogênea e invariável, e negação da ideia de que a língua portuguesa pertence a outros povos.
  5. E
    Atitude crítica, que se estende à própria língua portuguesa, por se tratar de sistema que não disporia de elementos necessários para a plena inserção sociocultural de falantes não nativos do português.

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Resposta: Dgabarito oficial do INEP

O que a questão cobra

A questão cobra a comparação entre duas visões sobre o contato entre línguas. Você precisa reconhecer a posição de João de Barros sobre os usos do português por outros povos.

Resolução

Compare os enfoques: o Texto I apresenta o contato linguístico como parte da história e explica que ele produz variação e mudança. Já no Texto II, João de Barros usa “barbarismo” para classificar como defeito a pronúncia de povos que tentam imitar o português.

assim nós podemos dizer que as nações de África, Guiné, Ásia, Brasil barbarizam quando querem imitar a nossa.

A comparação com gregos e romanos reforça essa visão: assim como eles chamavam de bárbaros os povos que não falavam como eles, o autor aplica esse julgamento aos falantes de outras regiões. Portanto, ele trata a língua portuguesa como um modelo único de correção e não reconhece como legítimos os usos que surgem em outros grupos. Essa posição contrasta com o Texto I, que destaca a variação linguística ligada à história e à diversidade social. Por isso, a comparação indica uma concepção homogênea e invariável da língua, além de negar que ela também pertença aos povos que a utilizam fora de Portugal.

Alternativa por alternativa

  • A

    O Texto II não demonstra benevolência com as línguas dos povos dominados: chama de “barbarismo” a pronúncia deles. Também não critica a gramática que esses povos possuíam.

  • B

    O autor julga negativamente os usos de outros povos, mas o texto não diz que eles provocaram a falência do idioma falado em Portugal.

  • C

    A referência aos gregos e romanos serve de comparação para o julgamento dos falantes de outras regiões. O texto não propõe conservar uma variante padrão da língua grega.

  • D

    Correta. O autor toma o português como padrão único e classifica como barbarismo os usos de outros povos. Assim, expressa uma visão de língua homogênea e invariável e não reconhece esses usos como parte legítima do português.

  • E

    O Texto II critica os falantes de outras regiões, não a capacidade do português de promover a inserção sociocultural de não nativos.

Para lembrarQuando um autor trata uma variedade como erro e impõe um único padrão, revela uma visão de língua homogênea e uma atitude preconceituosa diante da variação.

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