Questão 14 do ENEM 2019 comentada
Interpretação de poema que retoma temas tradicionais da viagem e da ausência na literatura brasileira.
A viagem
Que coisas devo levar nesta viagem em que partes?
As cartas de navegação só servem a quem fica.
Com que mapas desvendar um continente que falta?
Estrangeira do teu corpo tão comum quantas línguas aprender para calar-me?
Também quem fica procura um oriente.
Também a quem fica cabe uma paisagem nova e a travessia insone do desconhecido e a alegria difícil da descoberta.
O que levas do que fica, o que, do que levas, retiro?
MARQUES, A. M. In: SANT’ANNA, A (Org.).
Rua Aribau. Porto Alegre: Tag, 2018
A viagem e a ausência remetem a um repertório poético tradicional. No poema, a voz lírica dialoga com essa tradição, repercutindo a
- ASaudade como experiência de apatia.
- BPresença da fragmentação da identidade.
- CNegação do desejo como expressão de culpa.
- DPersistência da memória na valorização do passado.
- ERevelação de rumos projetada pela vivência da solidão.
Tente resolver antes de abrir. Errar aqui é de graça.
Ver a resposta e a resolução
O que a questão cobra
A questão exige que você relacione a viagem e a ausência a uma tradição poética. Também é preciso perceber como o poema dá novo sentido a esses temas.
Resolução
A viagem e a ausência aparecem como temas poéticos tradicionais. Mas o poema não trata a separação apenas como perda: apresenta o desconhecido como possibilidade de descoberta, inclusive para quem permanece.
Também a quem fica cabe uma paisagem nova e a travessia insone do desconhecido e a alegria difícil da descoberta.
O trecho mostra que a experiência de quem fica também pode abrir novos caminhos. A solidão da ausência não leva à apatia; ela se relaciona à busca de um “oriente”, isto é, de uma direção, e à vivência de uma paisagem nova. Assim, os rumos se revelam pela experiência de atravessar o desconhecido. É essa transformação da ausência em descoberta que sustenta a alternativa E.
As perguntas sobre o que levar e o que deixar reforçam a ideia de travessia. O poema não se concentra em recuperar o passado, mas em explorar o que pode surgir dessa experiência.
Alternativa por alternativa
- A
o poema não apresenta apatia. Ele fala em “alegria difícil da descoberta”, sinal de uma experiência ativa.
- B
as perguntas sobre as partes e o corpo podem sugerir estranhamento, mas o poema destaca a travessia e a descoberta, não a fragmentação da identidade.
- C
a pergunta sobre aprender línguas para calar-se não afirma culpa nem negação do desejo; o poema trata da dificuldade de comunicação na ausência.
- D
o foco não está em preservar ou valorizar o passado. O poema enfatiza a paisagem nova e o desconhecido.
- E
Correta. a vivência da ausência e da solidão abre caminhos e revela novos rumos, tanto para quem parte quanto para quem fica.
Para lembrarNa interpretação de poemas, observe como temas tradicionais ganham sentidos novos por meio das imagens e das experiências apresentadas.
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