Questão 35 do ENEM 2015 comentada
Entenda como a comparação entre diferentes contextos revela desafios de convivência entre culturas.
Quanto ao “choque de civilizações”, é bom lembrar a carta de uma menina americana de sete anos cujo pai era piloto na Guerra do Afeganistão: ela escreveu que — embora amasse muito seu pai — estava pronta a deixá-lo morrer, a sacrificá-lo por seu país. Quando o presidente Bush citou suas palavras, elas foram entendidas como manifestação “normal” de patriotismo americano; vamos conduzir uma experiência mental simples e imaginar uma menina árabe maometana pateticamente lendo para as câmeras as mesmas palavras a respeito do pai que lutava pelo Talibã — não é necessário pensar muito sobre qual teria sido a nossa reação.
ZIZEK, S. Bem-vindo ao deserto do real. São Paulo: Bom Tempo, 2003.
A situação imaginária proposta pelo autor explicita o desafio cultual do(a)
- APrática da diplomacia.
- BExercício da alteridade.
- CExpansão da democracia.
- DUniversalização do progresso.
- EConquista da autodeterminação.
Tente resolver antes de abrir. Errar aqui é de graça.
Ver a resposta e a resolução
O que a questão cobra
A questão exige interpretar uma comparação entre situações semelhantes vividas por pessoas de culturas diferentes. O foco é reconhecer a importância de considerar a perspectiva do outro.
Resolução
O autor propõe comparar as palavras de duas meninas sobre o sacrifício de seus pais: uma americana, cujo pai lutava na Guerra do Afeganistão, e uma árabe muçulmana, cujo pai lutava pelo Talibã. A fala da primeira foi considerada uma manifestação normal de patriotismo. A situação imaginada questiona se a mesma fala seria julgada da mesma maneira quando dita pela segunda menina.
não é necessário pensar muito sobre qual teria sido a nossa reação.
Essa comparação expõe um desafio: avaliar pessoas de outra cultura sem aplicar critérios diferentes dos usados para avaliar pessoas do próprio grupo. Para isso, você precisa reconhecer a perspectiva do outro e evitar que diferenças culturais ou políticas impeçam a compreensão de sua experiência. Essa capacidade de se colocar diante da diferença e reconhecer o outro como sujeito é a alteridade. Portanto, a situação não trata de expandir a democracia, promover o progresso ou conquistar autonomia política. Ela chama atenção para como interpretamos manifestações de patriotismo quando mudam a cultura e o lado político de quem fala.
Alternativa por alternativa
- A
A questão não discute negociações entre países nem formas de conduzir relações diplomáticas.
- B
Correta. A comparação mostra o desafio de compreender a perspectiva de alguém de outra cultura sem julgá-la com critérios diferentes. Isso corresponde ao exercício da alteridade.
- C
O texto não aborda a expansão de instituições ou valores democráticos; compara julgamentos sobre patriotismo.
- D
Não há discussão sobre progresso ou sua difusão entre sociedades. O foco está na diferença de reação diante de falas semelhantes.
- E
O texto não trata da autonomia política de um povo, mas da maneira como avaliamos pessoas de culturas e lados distintos.
Para lembrarAlteridade é reconhecer e considerar a perspectiva do outro, inclusive quando sua cultura ou seu contexto político diferem dos seus.
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