Questão 30 do ENEM 2023 comentada
Entenda como proibições e punições no texto literário representam o contexto político de uma época.
## Sombras de reis barbudos
José J. Veiga
Enquanto estivemos entretidos com os urubus outras coisas andaram acontecendo na cidade. A Companhia baixou novas proibições, umas inteiramente bobocas, só pelo prazer de proibir (ninguém podia cuspir pra cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com peneira, como se todo mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem irritantes, como a de pular muro pra cortar caminho, tática que quase todo mundo que não sofria de reumatismo vinha adotando ultimamente, principalmente os meninos. E não confiando na proibição só, nem na força dos castigos, que eram rigorosos, a Companhia ainda mandou fincar cacos de garrafa nos muros. Achei isso um exagero, e comentei o assunto com mamãe. Meu pai ouviulá do quarto e veio explicar. Disse que em épocas normais bastava uma coisa ou outra; mas agora a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em suas ordens; se alguém desobedecesse à proibição podia se cortar nos cacos; se alguém conseguisse pular um muro quebrando o corte de alguns cacos, ou jogando um couro por cima, era apanhado pela proibição, nhoc — e fez o gesto de quem torce o pescoço de um frango.
Sob a perspectiva do menino que narra, os fatos ficcionais oferecem um esboço do momento político vigente na década de 1970, aqui representado pelo
Enquanto estivemos entretidos com os urubus outras coisas andaram acontecendo na cidade. A Companhia baixou novas proibições, umas inteiramente bobocas, só pelo prazer de proibir (ninguém podia cuspir pra cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com peneira, como se todo mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem irritantes, como a de pular muro pra cortar caminho, tática que quase todo mundo que não sofria de reumatismo vinha adotando ultimamente, principalmente os meninos. E não confiando na proibição só, nem na força dos castigos, que eram rigorosos, a Companhia ainda mandou fincar cacos de garrafa nos muros. Achei isso um exagero, e comentei o assunto com mamãe. Meu pai ouviu lá do quarto e veio explicar. Disse que em épocas normais bastava uma coisa ou outra; mas agora a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em suas ordens; se alguém desobedecesse à proibição podia se cortar nos cacos; se alguém conseguisse pular um muro quebrando era apanhado pela proibição, nhoc – e fez o gesto de quem torce o pescoço de um frango.
VEIGA, J. J. Sombras de reis barbudos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
Sob a perspectiva do menino que narra, os fatos ficcionais oferecem um esboço do momento político vigente na década de 1970, aqui representado pelo
- ACulto ao medo, infiltrado em situações do cotidiano.
- BSentimento de dúvida quanto à veracidade das informações.
- CAmbiente de sonho, delineado por imagens perturbadoras.
- DIncentivo ao desenvolvimento econômico com a iniciativa privada.
- EEspaço urbano marcado por uma política de isolamento das crianças.
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O que a questão cobra
A questão exige relacionar recursos do texto literário, como a narração infantil e as proibições, ao contexto político da década de 1970. Também cobra a interpretação do efeito dessas medidas sobre a vida cotidiana.
Resolução
A narração é feita por um menino, que conta as medidas impostas pela Companhia como parte da vida na cidade. Algumas proibições parecem absurdas; outras limitam ações comuns, como pular muros. A Companhia ainda instala cacos de vidro e aplica castigos rigorosos para impedir qualquer desobediência.
a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em suas ordens
Essa fala do pai explicita a lógica do poder: não basta criar regras, é preciso impedir que alguém as contorne. A ameaça de punição transforma o medo em presença constante no cotidiano. Assim, as situações ficcionais fazem referência a um contexto político autoritário, como o da década de 1970, marcado pelo controle e pela repressão. A perspectiva do menino torna esse controle visível por meio de fatos concretos e de proibições que afetam a rotina dos moradores. Por isso, o texto representa o culto ao medo infiltrado em situações comuns.
Alternativa por alternativa
- A
Correta. As proibições, os castigos e os cacos nos muros mostram o uso do medo para controlar ações cotidianas.
- B
O menino relata as medidas da Companhia; o trecho não põe em dúvida a veracidade das informações.
- C
Embora algumas proibições sejam absurdas, o texto descreve ações concretas de controle, não um ambiente de sonho.
- D
A Companhia impõe proibições e punições; não há incentivo à iniciativa privada nem ao desenvolvimento econômico.
- E
Pular muros é uma prática comum, sobretudo entre os meninos, mas as medidas da Companhia atingem os moradores em geral.
Para lembrarEm textos literários, proibições e punições podem representar o controle e a repressão de um contexto político.
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