Questão 122 do ENEM 2013 comentada
Entenda como a metáfora do relógio constrói a representação do tempo e do desejo em um texto literário.
Capítulo LIV — A pêndula
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tiquetaque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, e a contá-las assim:
— Outra de menos…
— Outra de menos…
— Outra de menos…
— Outra de menos…
O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados.
ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992 (fragmento).
O capítulo apresenta o instante em que Brás Cubas revive a sensação do beijo trocado com Virgília, casada com Lobo Neves. Nesse contexto, a metáfora do relógio desconstrói certos paradigmas românticos, porque
- AO narrador e Virgília não têm percepção do tempo em seus encontros adúlteros.
- BComo “defunto autor”, Brás Cubas reconhece a inutilidade de tentar acompanhar o fluxo do tempo.
- CNa contagem das horas, o narrador metaforiza o desejo de triunfar e acumular riquezas.
- DO relógio representa a materialização do tempo e redireciona o comportamento idealista de Brás Cubas.
- EO narrador compara a duração do sabor do beijo à perpetuidade do relógio.
Tente resolver antes de abrir. Errar aqui é de graça.
Ver a resposta e a resolução
O que a questão cobra
A questão exige que você interprete a metáfora do relógio no contexto do beijo entre Brás Cubas e Virgília. Também cobra a relação entre a passagem do tempo e a quebra de uma visão idealizada do amor.
Resolução
O relógio marca a passagem concreta e contínua do tempo. Em noites sem sono, Brás Cubas sente cada batida como a perda de um instante. Na noite do beijo, porém, sua percepção muda: o tempo deixa de ser apenas algo que se perde e passa a ser vivido com prazer.
Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados.
Essa mudança não faz o tempo parar. O relógio continua a bater, e o narrador percebe os minutos. O que muda é a maneira como ele os sente. Assim, a metáfora contrasta a materialidade do tempo, marcada pelo relógio, com a experiência prazerosa do beijo. Isso se afasta da idealização romântica de um amor que suspenderia ou venceria o tempo. A passagem apresenta uma experiência concreta, ligada ao desejo e às sensações de Brás Cubas. Por isso, a alternativa D é a correta: o relógio representa o tempo material e desloca a visão idealista do narrador.
Alternativa por alternativa
- A
O narrador percebe a passagem do tempo e descreve sua mudança de sensação; ele não afirma que os dois deixam de percebê-lo.
- B
Brás Cubas não trata como inútil acompanhar o tempo: ele ouve o relógio e até lhe dá corda para continuar contando os instantes.
- C
A oposição entre instantes perdidos e minutos ganhados se refere à experiência do tempo e do prazer, não ao desejo de acumular riquezas.
- D
Correta. O relógio torna concreta a passagem do tempo, enquanto a experiência do beijo substitui a percepção de perda por uma sensação prazerosa, afastada da idealização romântica.
- E
O texto não compara quanto dura o sabor do beijo com a perpetuidade do relógio; contrapõe a passagem do tempo à forma como o narrador vive aqueles minutos.
Para lembrarEm um texto literário, interprete a metáfora pelo contexto: o relógio pode tornar concreta a passagem do tempo, enquanto as sensações alteram como o personagem a percebe.
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