Questão 131 do ENEM 2011 comentada
Entenda como a variação linguística revela a existência de diferentes normas de uso do português.
Há certos usos consagrados na fala, e até mesmo na escrita, que, a depender do estrato social e do nível de escolaridade do falante, são, sem dúvida, previsíveis. Ocorrem até mesmo em falantes que dominam a variedade padrão, pois, na verdade, revelam tendências existentes na língua em seu processo de mudança que não podem ser bloqueadas em nome de um “ideal linguístico” que estaria representado pelas regras da gramática normativa. Usos como ter por haver em construções existenciais (tem muitos livros na estante), o do pronome objeto na posição de sujeito (para mim fazer o trabalho), a não-concordância das passivas com se (aluga-se casas) são indícios da existência, não de uma norma única, mas de uma pluralidade de normas, entendida, mais uma vez, norma como conjunto de hábitos linguísticos, sem implicar juízo de valor.
CALLOU, D. Gramática, variação e normas. In: VIEIRA, S. R.; BRANDÃO, S. (orgs). Ensino de gramática: descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007 (fragmento).
Considerando a reflexão trazida no texto a respeito da multiplicidade do discurso, verifica-se que
- AEstudantes que não conhecem as diferenças entre língua escrita e língua falada empregam, indistintamente, usos aceitos na conversa com amigos quando vão elaborar um texto escrito.
- BFalantes que dominam a variedade padrão do português do Brasil demonstram usos que confirmam a diferença entre a norma idealizada e a efetivamente praticada, mesmo por falantes mais escolarizados.
- CMoradores de diversas regiões do país que enfrentam dificuldades ao se expressar na escrita revelam a constante modificação das regras de emprego de pronomes e os casos especiais de concordância.
- DPessoas que se julgam no direito de contrariar a gramática ensinada na escola gostam de apresentar usos não aceitos socialmente para esconderem seu desconhecimento da norma padrão.
- EUsuários que desvendam os mistérios e sutilezas da língua portuguesa empregam formas do verbo ter quando, na verdade, deveriam usar formas do verbo haver, contrariando as regras gramaticais.
Tente resolver antes de abrir. Errar aqui é de graça.
Ver a resposta e a resolução
O que a questão cobra
A questão exige que você reconheça a diferença entre a norma idealizada pela gramática e os usos efetivos da língua. Também cobra a compreensão de que esses usos podem ocorrer entre falantes escolarizados.
Resolução
O texto discute usos que aparecem na fala e na escrita, inclusive entre pessoas que conhecem a variedade padrão. A autora entende norma como um conjunto de hábitos linguísticos, não como um modelo único que deve ser seguido por todos.
Ocorrem até mesmo em falantes que dominam a variedade padrão
A frase mostra que conhecer a variedade padrão não impede o falante de usar construções que se afastam da gramática normativa. O texto cita, por exemplo, o uso de “ter” em construções existenciais e a falta de concordância em construções com “se”. Esses usos são apresentados como sinais de tendências da língua em mudança e da existência de várias normas, sem julgamento de valor.
Por isso, a alternativa B está de acordo com a reflexão: até falantes mais escolarizados podem apresentar usos que evidenciam a distância entre a norma idealizada e a praticada. As demais alternativas atribuem ao texto ideias que ele não afirma, como dificuldades regionais, intenção de contrariar a gramática ou a obrigação de substituir certas formas por outras.
Alternativa por alternativa
- A
O texto não afirma que estudantes confundem língua falada e escrita nem que levam usos da conversa para seus textos.
- B
Correta. O texto afirma que até falantes que dominam a variedade padrão usam formas que revelam a diferença entre a norma idealizada e os hábitos linguísticos efetivos.
- C
O texto não relaciona esses usos a moradores de regiões específicas nem a dificuldades de expressão escrita; trata de hábitos linguísticos e de mudança na língua.
- D
O texto não atribui aos falantes a intenção de contrariar a gramática ou esconder desconhecimento. Também não julga esses usos como socialmente inadequados.
- E
O exemplo do verbo “ter” é apresentado como um uso existente, não como uma forma que os falantes deveriam substituir obrigatoriamente por “haver”.
Para lembrarA língua apresenta diferentes normas de uso, e a variedade praticada não se limita ao modelo idealizado pela gramática normativa.
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