Linguagens ENEM 2025 média

Questão 10 do ENEM 2025 comentada

Entenda como a escolha de palavras sintetiza a opinião da autora sobre a escrita manual e as tecnologias.

Numeração do caderno azul · Linguagens

Questão 10ENEM 2025

De próprio punho

A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda

que vai do simples bilhete aos originais de um livro

1

Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia
2 que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem
3 burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade,
4 o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais
5 fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra,
6 hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca,
7 mais rotunda e mais cheia de arestas.

8

É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita,
9 manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso
10 não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que
11 eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de
12 tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou
13 sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever
14 neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais
15 ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias
16 possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje,
17 são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou
18 três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times
19 New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus
20 e o mundo.

21

A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca
22 deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até
23 hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços
24 e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está
25 em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na
26 cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus
27 coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its
28 na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico
29 comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso.

30

No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais
31 lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai
32 minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados
33 precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam
34 como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por
35 outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais
36 ainda as adultas) precisa conviver.

As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco

37

38 complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas
39 ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando,
40 mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de
41 certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta
42 muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação
43 por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados,
44 e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma
45 frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”.

RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).

O recurso linguístico usado para marcar a síntese da opinião da autora sobre a temática desenvolvida foi o(a)

  1. A
    emprego da primeira pessoa em “Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão ‘de próprio punho’”. (l. 1)
  2. B
    utilização de locução adverbial em “Na verdade, o que importava era a autenticidade da minha caligrafia”. (l. 3-4)
  3. C
    uso de pronome possessivo em “Minha letra, hoje, tem uma espécie de alternância”. (l. 5-6)
  4. D
    adoção de termo autorreflexivo em “No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma”. (l. 30)
  5. E
    substituição da expressão “Do punho ao pixel” (l. 44) pela expressão “o punho e o pixel”. (l. 45)

Tente resolver antes de abrir. Errar aqui é de graça.

Ver a resposta e a resolução

Resposta: Egabarito oficial do INEP

O que a questão cobra

A questão cobra a análise dos efeitos de sentido produzidos pela escolha e pela substituição de expressões. Você deve identificar qual recurso resume a opinião da autora sobre a convivência entre escrita manual e digital.

Resolução

A autora comenta como a escrita à mão aparece em sua rotina, ao lado de ferramentas digitais, como teclados e telas. A questão pede o recurso que sintetiza sua opinião sobre essa temática.

“Do punho ao pixel”

A expressão “Do punho ao pixel” sugere um percurso entre dois modos de escrever: à mão e com recursos digitais. Quando ela é substituída por “o punho e o pixel”, os dois elementos passam a ser apresentados lado a lado, unidos pela conjunção “e”.

Essa mudança resume a ideia desenvolvida no texto: a escrita manual e a digital coexistem. A autora não apresenta uma como substituta definitiva da outra; ela mostra que ainda escreve à mão em algumas situações, embora também use teclados e telas. Por isso, a substituição entre as expressões funciona como uma síntese da opinião dela sobre o tema.

As demais alternativas apontam marcas de trechos específicos, como o relato pessoal ou a descrição da própria letra. Elas não resumem a relação entre os dois modos de escrever.

Alternativa por alternativa

  • A

    O uso da primeira pessoa marca uma experiência pessoal da autora, mas não sintetiza sua opinião sobre a escrita manual e a digital.

  • B

    A locução “Na verdade” introduz uma explicação sobre a autenticidade da caligrafia. Ela não resume a temática do texto.

  • C

    O possessivo “Minha” indica que a autora fala de sua própria letra, mas não expressa uma síntese da relação entre punho e pixel.

  • D

    A expressão “comigo mesma” mostra uma reflexão sobre o modo como a autora se trata. Não resume sua opinião sobre as formas de escrita.

  • E

    Correta. A substituição de “Do punho ao pixel” por “o punho e o pixel” reúne a escrita manual e a digital. Essa escolha sintetiza a coexistência entre elas, tema desenvolvido no texto.

Para lembrarA conjunção “e” pode reunir elementos distintos e, no contexto, indicar que eles coexistem.

Resolução escrita com ajuda de IA a partir do gabarito oficial e revisada por um segundo modelo antes de ir ao ar. Achou erro? Avise a gente.

Recursos expressivos da língua, procedimentos de construção e…

Essa caiu. Outras do mesmo assunto também vão.

No enemjuntos você treina Recursos expressivos da língua, procedimentos de construção e… com questões oficiais do mesmo assunto, e o app te chama para revisar antes de você esquecer.

Treinar esse assunto grátis →

Questões parecidas